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Retrofit na TSB: como avaliar a energia e as exigências da ficha F2

Uma reforma pode reduzir o consumo de energia e, ainda assim, deixar perguntas importantes sem resposta: a intervenção está no escopo da Taxonomia Sustentável Brasileira? A construtora cumpre a condição de elegibilidade? A redução foi calculada para o edifício ou apenas para um equipamento? O destino dos resíduos e os riscos climáticos foram verificados?

Este guia ajuda proprietários, condomínios, gestores públicos, projetistas e construtoras a montar uma análise de retrofit baseada na ficha F2 do Caderno Construção. O foco é transformar o texto oficial em decisões de projeto e documentos verificáveis, sem antecipar uma declaração de alinhamento. Para os conceitos, documentos e demais aplicações, consulte o índice da série TSB.

Nota editorial: fontes verificadas em 04/10/2026. A referência é o caderno consolidado da primeira edição disponibilizado pelo Ministério da Fazenda. A página informa publicação em 01/11/2025 e atualização em 03/07/2026; essa atualização de página não comprova, por si, uma nova edição dos critérios. A F2 ocupa as páginas 10 a 13. Caderno oficial e metadados.

1. Delimite a intervenção antes de calcular a economia

A F2 abrange edifícios existentes residenciais, comerciais, industriais e públicos, inclusive mudança de uso. Seu escopo envolve renovação tecnológica das instalações e reabilitação da edificação. Instalações prediais classificadas na CNAE 43 entram quando realizadas conjuntamente ao retrofit. Os códigos indicados para a responsabilidade total pelo projeto são 41.10-7 e 41.20-4; a ficha admite subcontratação de serviços de outras CNAEs.

A manutenção sem atualização tecnológica ou de instalações está fora desse escopo. Também são excluídos edifícios que, depois da intervenção, sejam destinados à extração, armazenamento, transporte ou fabricação de combustíveis fósseis. Para locais com risco geo-hidrológico alto ou muito alto e para áreas especialmente protegidas, terras indígenas e quilombolas ou sítios históricos, a ficha contém exclusões e ressalvas específicas de licenciamento e, no texto referente a comunidades indígenas e quilombolas, de interesse dessas comunidades. A ressalva deve ser examinada integralmente no caso concreto; não é uma autorização genérica para construir. F2, pp. 10–11.

Na prática, faça uma ficha de abertura com endereço, uso atual e futuro, áreas afetadas, sistemas substituídos, estrutura preservada, serviços contratados e responsáveis. Esse registro é uma sugestão de organização: ajuda a demonstrar por que a obra foi analisada como F2.

Há outra fronteira importante. A F3 trata de medidas individuais de eficiência energética e informa que elas não são cumulativas nem podem ocorrer em conjunto com F1 ou F2. Portanto, evite apresentar a mesma intervenção integrada como dois enquadramentos independentes, um para o edifício e outro para seus componentes. Isso não impede tecnicamente a instalação dos componentes no retrofit; exige cuidado com o recorte adotado para classificá-los. F3, p. 14.

2. Verifique a condição da construtora

A F2 exige que a construtora responsável pela execução tenha certificação SIAC, do PBQP-H, nível A. Para esta edição, admite como alternativa um sistema de gestão certificado pela ABNT NBR ISO 9001, desde que inclua o requisito de formalidade e legalidade na avaliação dos fornecedores, conforme o item 8.4.1.2 do regimento geral do SIAC.

Uma cópia de certificado ISO 9001, isoladamente, não demonstra o complemento exigido. Peça o certificado e a documentação que sustenta esse requisito na gestão de fornecedores. Registre o escopo e a validade dos documentos e sua relação com a empresa efetivamente responsável pela obra. Os dois primeiros requisitos vêm da ficha; essa forma de conferência é uma recomendação prática para organizar a evidência. F2, p. 11.

3. Leia os itens de contribuição substancial sem completar lacunas do texto

Para mitigação da mudança do clima, a ficha apresenta:

  • Item A: atingir, após o retrofit, os níveis estabelecidos por tipologia na F1
  • Item B: reduzir a demanda de energia primária anual, ou DEP, expressa em kWh/m²/ano, em 20% para edifícios comerciais ou de serviços e em 10% para residenciais, em relação à situação anterior ao retrofit. Para comerciais ou de serviços, a análise poderá ser ponderada conforme dados climáticos e ocupacionais
  • Item C: qualificar automaticamente a provisão de habitação de interesse social em edifícios retrofitados ou requalificados em áreas urbanas consolidadas, conforme a remissão da ficha à Lei nº 13.465/2017, evidenciando atendimento ao nível mínimo da ABNT NBR 15575 para desempenho térmico e lumínico

Cuidado de leitura: a F2 enumera A, B e C sem explicitar, nesse trecho, uma regra geral de combinação entre eles. Este guia não acrescenta uma dispensa nem determina que sejam todos cumulativos. O caso numérico a seguir testa apenas o componente quantitativo do item B. A interpretação completa para declarar enquadramento precisa ser documentada junto aos demais requisitos. F2, pp. 11–12.

Se o projeto invocar o item A, confira a F1 completa: há níveis por tipologia, condições de etiquetas e certificações e, naquela ficha, um item adicional de inventário. A remissão da F2 é aos níveis por tipologia; o alcance dessa remissão exige justificativa, sem presumir importação ou dispensa automática de todos os requisitos da F1. Para HIS, confirme a caracterização legal indicada na nota 3 da F2; a expressão “automaticamente qualificada” pertence à contribuição substancial e não elimina elegibilidade, NPS ou salvaguardas mínimas. F1, pp. 7–8, e F2, p. 12.

4. Caso didático: retrofit de um edifício de escritórios

Hipóteses do exemplo, sem relação com uma obra real: um edifício comercial mantém a mesma área de referência, de 2.000 m², e passa por atualização de climatização, iluminação e envoltória. A equipe técnica já apurou valores comparáveis de DEP para antes e depois, com método, condições de operação e dados climáticos documentados.

  • DEP anterior: 250 kWh/m²/ano
  • DEP posterior: 195 kWh/m²/ano
  • Diferença: 55 kWh/m²/ano
  • Redução relativa: (250 − 195) ÷ 250 × 100 = 22%

Para essa base, uma redução de 20% corresponde a uma DEP posterior de 200 kWh/m²/ano: 250 × 0,80. O valor didático de 195 fica abaixo dessa referência e supera o percentual de redução indicado no item B para a tipologia comercial.

Mantendo os mesmos 2.000 m² de referência, os valores equivalem a 500.000 e 390.000 kWh de energia primária por ano. A diferença de 110.000 kWh/ano ajuda a conferir a coerência da conta, mas não é automaticamente uma economia de eletricidade faturada, um valor em reais ou uma quantidade de CO₂ evitada.

Conclusão proporcional à evidência: nas hipóteses adotadas, o cálculo atende ao componente quantitativo de redução da DEP do item B para edifício comercial. Ainda faltam, para qualquer conclusão abrangente, a sustentação técnica dos valores, a interpretação documentada da ficha e as verificações de elegibilidade, NPS e salvaguardas.

Os números 2.000, 250 e 195 são escolhas didáticas. O percentual de 20%, a unidade do indicador e a tipologia comercial vêm da F2. Se a DEP posterior fosse 205, a redução seria 18%, e o mesmo teste quantitativo não atingiria a referência de 20%. Critério oficial: F2, p. 11.

5. Onde o cálculo costuma perder sua utilidade

Comparar contas em reais. A ficha pede DEP anual por área. Mudanças de tarifa ou de encargos podem alterar a despesa sem provar melhora nesse indicador. Faturas ajudam a reconstituir o histórico, mas não substituem a memória de cálculo da DEP.

Usar a economia de um equipamento como a do edifício. Em outro exemplo puramente didático, um sistema reduz sua parcela de 50 para 30 kWh/m²/ano, economizando 40%. Se as demais parcelas continuam em 200, o total passa de 250 para 230: a redução do edifício é de apenas 8%. O perímetro do numerador e do denominador precisa ser o mesmo.

Mudar silenciosamente as condições de comparação. Um andar desocupado, menos horas de funcionamento ou mudança de uso pode influenciar o resultado. Para comerciais e serviços, a F2 admite ponderação climática e ocupacional. Registre as condições observadas, os ajustes e sua justificativa, em vez de atribuir toda a queda à obra.

Trocar a área de referência sem explicar. Uma expansão pode reduzir o indicador por metro quadrado mesmo com aumento da demanda total. Documente a área adotada e apresente também os valores absolutos como conferência. Essa conferência é uma recomendação do guia, não um novo limiar da TSB.

Generalizar a tipologia. Embora o escopo da F2 inclua edifícios industriais e públicos, o item B nomeia comerciais ou de serviços e residenciais. Não atribua automaticamente 20% a qualquer edifício não residencial. Edifícios mistos e conversões de uso também precisam de justificativa específica; este guia não cria uma fórmula de média entre 10% e 20%. Escopo e item B: F2, pp. 10–11.

6. Leve os requisitos de NPS para o projeto e o canteiro

A tabela da F2 traz exigências concretas de não prejudicar significativamente outros objetivos. Para o retrofit, elas podem mudar decisões antes da contratação:

  • Risco climático: a F2 remete aos critérios de contribuição substancial de adaptação. Na FA1, risco baixo ou moderado pede estudo qualitativo e/ou quantitativo; risco alto exige avaliação de vulnerabilidade pelo processo completo do Anexo A2. Os níveis são determinados conforme as seções 1.1 e 1.2 desse anexo. Um diagnóstico de energia não resolve essa avaliação
  • Materiais e madeira: documentar o controle de legalidade da cadeia de materiais. A madeira deve atender às origens e comprovações indicadas, como reflorestamento, manejo florestal sustentável com rastreio pelo DOF, ou certificação FSC/CERFLOR, conforme a situação descrita na ficha
  • Água: elaborar estudo de viabilidade conforme ABNT NBR 16782, contemplando dispositivos economizadores, medição, vazamentos e análise de fontes alternativas não potáveis, com a remissão à ABNT NBR 16783
  • Estruturas e circularidade: priorizar recuperação e aproveitamento das estruturas existentes, ampliar componentes reutilizáveis e sistemas industrializados, buscar eficiência de materiais e observar o alinhamento às diretrizes e objetivos da Estratégia Nacional de Economia Circular
  • Contaminação e resíduos: investigar previamente materiais contaminados, em particular asbesto; preparar os planos aplicáveis e assegurar segregação, rastreabilidade da coleta e destinação adequada. A evidência da gestão inclui o Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil, o PGRCC
  • Climatização e vizinhança: avaliar substâncias controladas nos sistemas existentes e sua destinação sem vazamentos; promover materiais de baixa emissão de compostos orgânicos voláteis e medidas contra poeira, ruído, sedimentos e outros impactos da obra

Esses pontos resumem a tabela; o projeto deve conferir os requisitos completos e as normas nela citadas. Os documentos de projeto, compras e destinação precisam demonstrar execução, além da intenção, na etapa correspondente. F2, pp. 12–13; FA1, pp. 23–24, Anexo A2.

A F2 também remete ao Anexo A1 para NPS do objetivo de redução das desigualdades. Confira seu recorte de organizações e fase de aplicação, em vez de transformar os quatro critérios em obrigação indiferenciada de toda pequena construtora. As salvaguardas mínimas, por sua vez, têm avaliação própria por indicadores de conformidade transversais e setoriais, com unidade de análise na organização ou entidade produtora. Anexo A1, pp. 1–2, Salvaguardas Mínimas, p. 7.

7. Organize um dossiê que permita revisar a conclusão

Este roteiro é uma proposta prática, não um formulário oficial da TSB:

  1. Objeto: edifício, uso, área, sistemas, obras e exclusões; justificativa do recorte F2
  2. Responsabilidade: construtora, subcontratações e evidências da condição SIAC ou da alternativa prevista
  3. Critério invocado: item da F2, tipologia, remissões aplicáveis e questões interpretativas ainda abertas
  4. Desempenho: dados anteriores e posteriores, método, memória de cálculo, área de referência, condições de operação, ajustes, incertezas e responsável técnico
  5. NPS: requisito por requisito, decisão de projeto, evidência, responsável e pendência; incluindo avaliação climática, água, materiais, resíduos e o Anexo A1 conforme aplicável
  6. Salvaguardas: avaliação da organização, documentos e consultas pertinentes aos indicadores aplicáveis
  7. Conclusão datada: o que está comprovado, o que é estimativa de projeto e o que depende de execução ou verificação

No estudo de viabilidade, identifique os resultados como previstos. Depois da obra, atualize o dossiê com a documentação correspondente ao que foi executado e ao desempenho efetivamente demonstrado pelo método adotado. Evite manter uma afirmação de projeto como se já fosse resultado verificado.

A finalidade é chegar a uma conclusão reproduzível. A metodologia da TSB relaciona o alinhamento ao atendimento dos critérios de contribuição substancial, NPS e salvaguardas mínimas. Um percentual favorável é uma peça desse conjunto; não gera, sozinho, certificação, aprovação de financiamento, taxa de juros menor ou benefício fiscal. Metodologia, pp. 9–10.

Leitura complementar: para organizar o diagnóstico inicial, consulte o guia de revisão energética na empresa. O presente módulo acrescenta o exame específico da ficha F2.

  • Taxonomia Sustentavel Brasileira

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