Relato integrado e os seis capitais: o que é e como ele organiza a narrativa de valor
Quem começa a estudar ESG logo esbarra em siglas: GRI, ISSB, TCFD, ESRS — e, em algum momento, aparece o símbolo <IR>. A dúvida é legítima: afinal, o que esse framework faz que os outros não fazem, e por que uma empresa usaria os dois ao mesmo tempo?
O que é o Framework
O International <IR> Framework é uma estrutura de relato voluntária, baseada em princípios, mantida hoje pela IFRS Foundation. Não é lei, não é norma prescritiva, não é requisito da CVM. Sua versão em vigor é a revisão de janeiro de 2021.
O propósito central é orientar a produção de um relatório integrado: uma comunicação concisa sobre como a estratégia, a governança, o desempenho e as perspectivas de uma organização conduzem à criação, preservação ou erosão de valor — em horizontes de curto, médio e longo prazo. O público primário são provedores de capital financeiro (investidores, financiadores), mas o framework reconhece que outras partes interessadas também se beneficiam dessa leitura.
Dois traços distinguem o <IR> de outros relatos. O primeiro é o pensamento integrado (integrated thinking): a ideia de que a organização deve considerar ativamente as relações entre suas unidades e os recursos que usa ou afeta, tomando decisões coerentes — não em silos. O segundo é a conectividade da informação: o relatório deve mostrar um quadro holístico de como os fatores que afetam a criação de valor se inter-relacionam, em vez de empilhar capítulos desconexos de governança, ambiental e financeiro.
Os seis capitais: estoques de valor que a empresa usa e transforma
O conceito mais reconhecível do framework são os seis capitais, tratados como estoques de valor que a organização aumenta, reduz ou transforma por meio de suas atividades:
- Financeiro — recursos disponíveis para produção de bens e serviços (capital próprio, dívida, doações).
- Manufaturado — objetos físicos disponíveis para produção: edifícios, equipamentos, infraestrutura.
- Intelectual — ativos intangíveis baseados em conhecimento: patentes, sistemas, procedimentos, protocolos.
- Humano — competências, capacidades e experiência das pessoas; motivação para inovar.
- Social e de relacionamento — instituições e relações dentro e entre comunidades, stakeholders e outros grupos, incluindo reputação e confiança.
- Natural — recursos ambientais e processos que suportam a prosperidade da organização e da sociedade: água, terra, biodiversidade, qualidade do ar.
Uma padaria, por exemplo, usa capital manufaturado (forno, balcão), humano (padeiro experiente), natural (trigo, água) e social (relação com fornecedores e clientes do bairro). O relatório integrado pergunta: ao longo do ano, esses estoques cresceram, foram preservados ou se deterioraram?
Um ponto importante: o framework não obriga a empresa a estruturar o relatório linha por linha seguindo cada capital. É um construto conceitual para orientar o raciocínio, não um índice fixo de divulgação.
Os dois pilares operacionais: princípios e elementos de conteúdo
O framework se organiza em dois eixos práticos.
Os sete princípios orientadores definem como relatar: foco estratégico e orientação para o futuro, conectividade da informação, relações com partes interessadas, materialidade, concisão, confiabilidade e completude, e consistência e comparabilidade.
Os oito elementos de conteúdo definem o que o relatório deve responder:
- Visão geral organizacional e ambiente externo
- Governança
- Modelo de negócios (insumos, atividades, produtos e resultados sobre os capitais)
- Riscos e oportunidades
- Estratégia e alocação de recursos
- Desempenho
- Perspectiva (outlook)
- Base de apresentação
Juntos, esses elementos formam a espinha dorsal de uma narrativa de criação de valor — diferente de um relatório de sustentabilidade que lista impactos por tema sem necessariamente conectá-los à estratégia ou ao modelo de negócios.
Como o se posiciona em relação a GRI e ISSB
O <IR> não substitui GRI nem ISSB. Funciona como camada de conectividade: organiza a arquitetura do documento e dá lógica ao encadeamento entre estratégia, capitais e desempenho. A GRI, por sua vez, é forte na divulgação de impactos sobre temas materiais. O ISSB (IFRS S1/S2) foca em riscos e oportunidades climáticas relevantes para o investidor. Os três podem coexistir no mesmo volume.
Conceitualmente, os princípios de conectividade do <IR> influenciaram o desenvolvimento do ISSB — não por acaso, ambos estão hoje sob a IFRS Foundation.
Um relato brasileiro como espelho: Eletrobras
O relato integrado anual da Eletrobras é um exemplo concreto de como essa arquitetura se manifesta. A empresa combina GRI, SASB, TCFD e a moldura de relato integrado num único documento — o que permite observar como cada framework vira artefato verificável, não apenas logotipo de capa.
A moldura integrada aparece na organização por capitais e na vinculação a ODS prioritários, estruturando a narrativa de como a companhia se reorganizou após a privatização e como sua estratégia climática se conecta ao modelo de negócios. Não é uma demonstração rigorosa e auditada de criação de valor por capital; é, antes, uma lógica de apresentação que amarra os capítulos.
Esse caso também ilustra um limite honesto: o <IR> é uma estrutura de organização e comunicação, não um mecanismo de asseguração. O relato da Eletrobras tem asseguração limitada sobre informações não financeiras, mas essa cobertura não alcança a estratégia, as metas futuras nem toda a narrativa de transição. A moldura integrada não resolve esse gap — ela o torna mais visível, o que já é útil.
O que isso significa para uma PME
Uma pequena transportadora ou uma oficina de médio porte não vai emitir um relato integrado formal. Mas o raciocínio dos capitais é aproveitável mesmo sem o documento: ao mapear quais estoques o negócio depende (frota e galpão = manufaturado; motoristas experientes = humano; combustível e emissões = natural; relação com clientes e comunidade = social), a empresa começa a enxergar riscos e oportunidades que um balanço financeiro sozinho não captura.
Para quem está aprendendo ESG, o <IR> é uma boa lente para entender por que um relatório de sustentabilidade bem feito não é um catálogo de boas ações, mas uma explicação de como o negócio cria ou destrói valor ao longo do tempo.
Por onde seguir
- Leia o próprio International
<IR>Framework (disponível em ifrs.org/issued-standards/integrated-reporting/) — é conciso por princípio. - Para entender como GRI e
<IR>se combinam na prática, analise o índice remissivo de um relato integrado brasileiro: veja quais elementos de conteúdo são preenchidos com divulgações GRI. - Para aprofundar o conceito de materialidade — central tanto no
<IR>quanto no GRI — consulte os artigos desta base sobre dupla materialidade e processo de identificação de temas materiais. - Se o objetivo for aplicar o raciocínio de capitais numa empresa menor, o ponto de partida prático é um inventário simples de dependências: de quais recursos o negócio depende e quais impactos gera sobre cada um deles.
O <IR> não entrega respostas prontas — entrega perguntas melhores.