Metas baseadas na ciência para a natureza (SBTN): o conceito que estende a lógica das metas científicas além do carbono
Quem já conhece a SBTi sabe a lógica: em vez de fixar uma meta de redução de emissões por conveniência interna, a empresa ancora seu compromisso no que a ciência do clima indica como necessário para limitar o aquecimento global. A SBTN faz o mesmo raciocínio, mas para a natureza — água doce, uso da terra, oceano e biodiversidade. É um passo além do carbono, e cada vez mais presente nas exigências de cadeias de suprimentos e nas expectativas de investidores.
O que é a SBTN e por que ela existe
A Science-Based Targets for Nature é uma metodologia técnica desenvolvida pela Science Based Targets Network, coalizão de mais de 80 organizações — entre elas WWF, WRI, UNEP-WCMC, WBCSD e Capitals Coalition — hospedada pela Rockefeller Philanthropy Advisors.
A premissa é direta: a crise ambiental não se resume ao clima. Mudança do uso do solo, captação excessiva de água, poluição de rios e conversão de ecossistemas marinhos pressionam os sistemas naturais de formas que o carbono sozinho não captura. A SBTN foi criada para que empresas estabeleçam metas ambientais alinhadas aos limites do sistema natural — os chamados "limites planetários" — nos domínios que o SBTi não cobre.
Em outras palavras: SBTi cuida do clima; SBTN cuida do restante da natureza. As duas metodologias são complementares, não concorrentes.
A metodologia é voluntária e gratuita (publicada sob licença Creative Commons CC BY-NC). A validação oficial das metas — o que permite à empresa afirmar publicamente que possui "metas baseadas na ciência para a natureza" — é um processo gerenciado e pago, operado pela SBTN via Accountability Accelerator, aberto desde fevereiro de 2025.
Os domínios cobertos
A SBTN organiza seus métodos em três domínios, chamados de realms:
- Freshwater (água doce): metas de quantidade (captação alinhada ao contexto local) e qualidade (cargas de poluentes e nutrientes). Versão vigente: Freshwater V1.1, de julho de 2024.
- Land (terra): destaque para as metas de no-conversion — compromisso de cessar a conversão de ecossistemas naturais associada às commodities da empresa — e de redução da pegada de terra. Versão vigente: Land V1.0, de setembro de 2024.
- Ocean (oceano): cobre pressões sobre ecossistemas marinhos e costeiros. Versão vigente: Ocean V1, de março de 2025.
Biodiversidade não é um quarto domínio isolado: ela é tratada de forma integrada ao longo dos três domínios acima. Os passos comuns 1 e 2 do processo estão na versão Steps V1.2, de setembro de 2025. Uma atualização maior — a V2, reunindo os três domínios — está prevista para meados de 2026, com pilotos empresariais a partir de junho de 2026.
Os cinco passos do processo
A arquitetura da SBTN é processual, não normativa. A empresa percorre cinco passos em sequência:
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Assess (Avaliar): mapear impactos e pressões ambientais nas operações diretas e na cadeia de valor. Inclui triagem de materialidade por pressão e setor, identificação de commodities de alto impacto e avaliação do estado da natureza em cada localização geográfica. A lógica é fortemente espacial: as metas precisam estar atreladas a lugares concretos.
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Interpret & Prioritize (Interpretar e Priorizar): ordenar pressões e locais por relevância e definir os recortes sobre os quais as metas serão fixadas — os chamados target boundaries.
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Measure, Set & Disclose (Medir, Definir e Divulgar): quantificar a linha de base, fixar as metas por domínio e divulgá-las. É aqui que entram as metas específicas de água, terra e oceano.
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Act (Agir): implementar ações para atingir as metas.
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Track (Monitorar): acompanhar, reportar e verificar o progresso ao longo do tempo.
Os três primeiros passos formam a espinha dorsal metodológica e são os que entram no processo de validação. Os passos 4 e 5 dizem respeito à execução e ao acompanhamento contínuo.
A hierarquia de ação AR3T
No Passo 4, as ações são organizadas segundo uma hierarquia conhecida pela sigla AR3T:
- Avoid (Evitar): não criar novos impactos.
- Reduce (Reduzir): diminuir os impactos existentes.
- Restore (Restaurar): recuperar ecossistemas degradados.
- Regenerate (Regenerar): promover condições para que a natureza se recupere além do estado anterior.
- Transform (Transformar): mudanças sistêmicas nos modelos de negócio e nas cadeias de valor.
A lógica é de precedência: evitar vem antes de restaurar. Uma empresa não pode compensar conversão de vegetação nativa com projetos de restauração em outro lugar sem antes demonstrar que esgotou as possibilidades de evitar e reduzir.
Como a SBTN se relaciona com a TNFD
A TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures) e a SBTN são frameworks distintos com funções complementares:
- A TNFD é uma estrutura de divulgação: define o que reportar sobre dependências, impactos, riscos e oportunidades relacionados à natureza. Seu método interno de avaliação é o LEAP (Locate, Evaluate, Assess, Prepare).
- A SBTN é uma metodologia de definição de metas: conduz a empresa pelo processo de mensurar e fixar compromissos quantificados, ancorados na ciência.
Na prática, as duas se alimentam. A fase de avaliação da SBTN (Passos 1 e 2) gera dados que informam as divulgações de Métricas e Metas da TNFD. Quem já percorreu o LEAP da TNFD tem boa parte do diagnóstico necessário para iniciar os Passos 1 e 2 da SBTN. Ambas também se alinham à Target 15 do Global Biodiversity Framework (GBF) de Kunming-Montreal, que trata da avaliação e divulgação corporativa sobre biodiversidade.
O que isso significa na prática — especialmente no Brasil
Para empresas com exposição a agronegócio, alimentos e bebidas, celulose ou qualquer setor com uso intensivo de terra, as metas de no-conversion do domínio Land são diretamente materiais. O Brasil concentra biomas de alta relevância global — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica — e cadeias de commodities sob crescente escrutínio de compradores internacionais e investidores.
Dois pontos para quem está mapeando o tema:
- A metodologia é gratuita e acessível; a validação oficial que permite o uso público da declaração "meta baseada na ciência para a natureza" é um serviço pago — não confunda os dois.
- A SBTN não exige relatório próprio: ela produz metas que depois alimentam divulgações existentes (relatório anual, TNFD, GRI, entre outros).
Por onde seguir
- Acompanhe a V2 da SBTN, prevista para meados de 2026: ela integrará os métodos de Land, Freshwater e Ocean em uma única versão, o que tende a simplificar a aplicação.
- Se a empresa já adota ou estuda a TNFD, mapeie onde o LEAP se conecta com os Passos 1 e 2 da SBTN — há sobreposição produtiva.
- Para empresas com cadeia de valor agrícola no Brasil, o ponto de entrada mais concreto é o método Land V1.0 e as metas de não conversão.
- Consulte profissional habilitado para avaliar como a metodologia se encaixa na estratégia e nas obrigações de reporte da sua empresa.