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Dupla materialidade como tendência global: por que o mundo se dividiu entre "risco para a empresa" e "impacto no mundo"

O campo ESG convive hoje com uma tensão de fundo que não está resolvida: qual informação de sustentabilidade é realmente relevante? A resposta depende de quem você pergunta — e de qual lado do Atlântico você está.

A divisão que estrutura o debate

Nos últimos anos consolidaram-se dois eixos distintos de materialidade.

O primeiro é a materialidade financeira (ou "simples"). A pergunta central é: quais questões de sustentabilidade afetam os resultados, os riscos e o valor da empresa no longo prazo? É a lógica do ISSB (International Sustainability Standards Board), cujos padrões IFRS S1 e S2 partem desse princípio. O investidor é o destinatário primário; a informação útil é aquela que informa uma decisão de alocação de capital. Se o risco climático não ameaça o fluxo de caixa, não é material para esse sistema.

O segundo é a materialidade de impacto. A pergunta é inversa: quais são os efeitos que a empresa causa sobre o meio ambiente, as pessoas e a sociedade — independentemente de esses efeitos voltarem para afetar o negócio? É a lógica histórica do GRI (Global Reporting Initiative) e do que a Europa incorporou no ESRS (European Sustainability Reporting Standards), obrigatório sob a CSRD.

A dupla materialidade é a tentativa de responder às duas perguntas ao mesmo tempo. Na arquitetura europeia, uma empresa deve avaliar tanto o que o mundo faz com ela quanto o que ela faz com o mundo. As duas direções coexistem no mesmo relato, com pesos equivalentes.

Por que o mundo não convergiu

A divergência não é acidente nem inércia burocrática. Ela reflete premissas diferentes sobre o papel da empresa e sobre quem é o usuário legítimo da informação de sustentabilidade.

O sistema ISSB parte de uma premissa de mercado de capitais: a informação deve ser decision-useful para o investidor. A materialidade financeira já tem décadas de jurisprudência e cultura auditorial. É mais fácil de assegurar, de comparar e de integrar ao relato financeiro tradicional.

A perspectiva de impacto parte de outra premissa: os efeitos que uma empresa gera sobre o clima, a biodiversidade ou os trabalhadores da cadeia de valor são socialmente relevantes mesmo que não retornem como risco financeiro no curto ou médio prazo. Ignorar esse lado, argumentam os defensores do modelo europeu, é uma forma de externalizar custos reais para a sociedade enquanto se apresenta um relato "completo".

Nenhuma das duas premissas é tecnicamente errada. São escolhas políticas sobre o que o relato corporativo deve fazer.

O caso da EU Taxonomy: classificação, não relato

Vale distinguir um instrumento específico que frequentemente aparece nesse debate: a EU Taxonomy não é um padrão de relato — é um sistema de classificação que define quando uma atividade econômica pode ser considerada ambientalmente sustentável. Ela usa uma lógica própria: uma atividade é "alinhada" se contribui substancialmente para ao menos um dos seis objetivos ambientais, não causa dano significativo aos demais (princípio DNSH) e cumpre salvaguardas mínimas sociais e de governança.

O que a Taxonomy faz é fornecer um vocabulário técnico de elegibilidade que outros instrumentos — incluindo o ESRS — passam a referenciar. Ela não resolve a disputa de materialidade, mas ilustra a direção europeia: um sistema que olha simultaneamente para o impacto da atividade sobre o ambiente e para os riscos que o ambiente coloca sobre a atividade.

Como a TNFD tenta acomodar os dois lados

A TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures), em sua versão final publicada em setembro de 2023, oferece um exemplo prático de como um framework pode trabalhar com os dois eixos sem forçar uma escolha.

Por um lado, a TNFD usa a materialidade financeira do ISSB como linha de base — é o piso mínimo para todos que adotam as recomendações. Por outro, permite e estimula que as organizações adicionem a materialidade de impacto com referência ao GRI, caso queiram ou precisem ir além do que afeta o valor do negócio.

Isso não é equidistância diplomática: é uma arquitetura deliberada. A TNFD reconhece que dependências e impactos relacionados à natureza estão profundamente entrelaçados. Uma transportadora que depende de estradas em regiões de manguezal depende de um serviço ecossistêmico; ao mesmo tempo, suas operações podem degradar esse mesmo ecossistema. Separar as duas direções é analiticamente possível, mas artificialmente limitante.

O método LEAP — Locate, Evaluate, Assess, Prepare — operacionaliza exatamente isso: primeiro localiza onde a organização interage com a natureza, depois avalia dependências e impactos (os dois sentidos), para só então chegar aos riscos e oportunidades financeiros. A sequência importa: o impacto vem antes do risco financeiro, não é um apêndice.

O que isso significa para quem acompanha o campo

Algumas leituras práticas que o material disponível sustenta:

  • Não existe convergência global ainda. O ISSB e o ESRS partem de premissas diferentes e produzem conjuntos de divulgação distintos. Quem relata para mercados europeus e internacionais ao mesmo tempo precisa lidar com os dois sistemas.

  • A dupla materialidade europeia não é apenas política. A lógica de que impactos ignorados hoje se tornam riscos financeiros amanhã tem fundamento — e a TNFD constrói metodologia sobre essa premissa para o tema da natureza.

  • A TNFD ainda não está consolidada no ISSB. Em junho de 2026, o destino institucional da TNFD era um practice statement (não mandatório) do ISSB/IFRS Foundation, com Exposure Draft previsto para outubro de 2026. No Brasil, os padrões ISSB foram internalizados pela CVM, mas o reporte tornou-se voluntário pela Resolução CVM 244 (maio de 2026). Integrar a TNFD a um relato local é, por ora, escolha estratégica, não obrigação.

  • Materialidade não é sinônimo de relevância percebida. Um tema pode ser altamente relevante para comunidades afetadas e não ser material sob a ótica financeira — e vice-versa. Entender qual critério está sendo aplicado é a primeira pergunta a fazer ao ler qualquer relato.

Por onde seguir

O debate de materialidade está longe de estabilizar. Vale acompanhar o Exposure Draft do ISSB sobre natureza (esperado para outubro de 2026), a revisão dos critérios da EU Taxonomy em consulta desde março de 2026 e a evolução da guidance setorial da TNFD, ainda em finalização. Para quem constrói relatos ou assessora empresas, entender qual materialidade está sendo adotada — e ser transparente sobre essa escolha — é hoje mais importante do que escolher o framework "certo".

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