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Sabesp e o truque das emissões evitadas: quando uma métrica relativa esconde que o número absoluto está subindo

A Sabesp publicou seu 15º relatório de sustentabilidade num ano de mudança institucional relevante: o controle da companhia foi vendido em julho de 2024, com o grupo Equatorial assumindo como acionista de referência. Toda a narrativa ESG foi reorganizada em torno de uma promessa contratual — universalizar água e esgoto até 2029, quatro anos antes do prazo legal. O caso é instrutivo justamente por essa tensão: uma empresa com inventário de GEE sério e verificado que, ao mesmo tempo, usa uma métrica de "emissões evitadas" que merece leitura mais cuidadosa.

A tensão que o setor cria

Universalizar o tratamento de esgoto é um objetivo social inegável. O problema, do ponto de vista climático, é que tratar mais esgoto gera mais emissões de processo — metano e óxido nitroso liberados durante o tratamento biológico. No relatório da Sabesp, o Escopo 1 (emissões diretas) responde por cerca de 72,8% do total do inventário de aproximadamente 2,39 milhões de toneladas de CO₂ equivalente registradas em 2024, e o tratamento de esgoto é a principal fonte.

Em outras palavras: quanto mais a empresa cumpre sua missão social, maior tende a ser o número absoluto de emissões de Escopo 1. Isso não é desonestidade — é uma tensão estrutural do setor. O ponto importante é como a empresa escolhe narrar esse fato.

O que são "emissões evitadas" e por que pedem ceticismo

"Emissões evitadas" é uma métrica que compara o que a empresa emitiu com o que teria emitido num cenário alternativo — o chamado contrafactual. No caso do saneamento, o argumento funciona assim: sem tratamento adequado de esgoto, o metano seria liberado diretamente nos corpos d'água; ao coletar e tratar, a empresa captura parte desse gás e gera energia. Logo, "evitou" emissões em relação ao que aconteceria sem ela.

O raciocínio tem lógica técnica. O problema é que o cenário contrafactual é hipotético por definição — ninguém sabe exatamente quanto seria emitido sem o tratamento. Quem constrói o contrafactual também escolhe os parâmetros que determinam o resultado. Isso cria espaço para que a métrica de "evitadas" mostre um número favorável enquanto o número absoluto de emissões reais sobe.

Esse é o "tell" — o sinal de alerta — que o caso evidencia: apresentar a métrica relativa em destaque sem deixar igualmente visível que o Escopo 1 absoluto está crescendo como consequência direta da expansão do serviço.

O que tem verificação e o que é autodeclarado

Aqui está a lição mais direta do caso, e ela vale para qualquer relatório que você analisar.

O inventário de GEE é verificado. A Sabesp publica seu inventário no Programa Brasileiro GHG Protocol e obteve o Selo Ouro pelo segundo ano consecutivo. Isso significa que um organismo certificador independente examinou a metodologia, os fatores de emissão (com base no AR5 do IPCC) e os dados. É possível questionar o escopo ou as escolhas metodológicas, mas existe uma âncora externa.

O restante do relatório é autodeclarado. O documento de sustentabilidade como um todo — incluindo a métrica de emissões evitadas, os indicadores GRI e SASB, as iniciativas de biogás e biossólidos — não apresenta declaração de asseguração independente. A empresa invoca GRI, SASB e TCFD, carimba indicadores com os códigos corretos e descreve seus processos com razoável detalhe. Mas nenhum auditor externo assinou embaixo do relatório inteiro.

Isso não invalida as informações. Significa que você deve ler com réguas diferentes: emissões verificadas de um lado, narrativa autodeclarada do outro.

Metas com ancoragem real existem — e valem notar

Para ser justo com o caso: as metas de cobertura de água e esgoto têm uma estrutura incomum e robusta. Há ano-alvo (2029), marcos intermediários por ciclo tarifário (2024–2029 e 2030–2034), verificação por agente independente e fiscalização da agência reguladora ARSESP. O não cumprimento tem consequência contratual. Isso é diferente de uma meta voluntária sem mecanismo de cobrança.

O plano de capital associado — cerca de R$70 bilhões até 2029 — é o elemento que transforma a meta de aspiração em compromisso com custo real. Metas que custam dinheiro e têm regulador olhando merecem peso diferente das que existem só no relatório.

O que isso significa na prática para uma PME

Você não vai publicar um inventário com Selo Ouro nem contratar uma big four para assegurar seu relatório. Mas a lição do caso cabe em qualquer escala:

  • Separe o verificado do autodeclarado. Se você mediu o consumo de energia com fatura de concessionária, diga isso. Se estimou a emissão de uma frota com fator de emissão do Ministério da Ciência, diga também. Transparência sobre o método vale mais do que número preciso sem origem declarada.
  • Cuidado com métricas relativas que escondem o absoluto. "Reduzimos a intensidade de emissão por tonelada produzida" pode ser verdade enquanto o total absoluto sobe porque a produção cresceu mais. Sempre mostre os dois.
  • Contrafactuais pedem cautela. "Evitamos X toneladas" comparado a um cenário hipotético é diferente de "reduzimos X toneladas em relação ao ano anterior". O segundo é mensurável; o primeiro depende de premissas que você define.
  • Diga de onde vem cada número. Fatura, nota fiscal, estimativa com fator de emissão publicado, medição direta — registre a fonte. Isso é o mínimo para que o dado seja útil no futuro e auditável se necessário.

Por onde seguir

Se o tema de inventário de GEE despertou interesse, o ponto de partida é o GHG Protocol Corporativo — o material é público e há versão brasileira. Para entender a diferença entre reduzir, compensar e neutralizar carbono, esses três conceitos têm definições técnicas distintas que vale estudar separadamente antes de usar qualquer um deles numa comunicação pública. Consulte um profissional habilitado se sua empresa precisar de asseguração formal ou se o inventário for exigido por clientes ou reguladores.

O caso da Sabesp não é sobre empresa boa ou ruim. É sobre aprender a ler um relatório com atenção ao que foi conferido por terceiros e ao que ficou apenas na palavra da própria empresa — uma habilidade que serve para analisar qualquer divulgação ESG, do maior conglomerado à padaria da esquina que resolve medir seu lixo.

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