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Como avaliar se um profissional ou consultor ESG é qualificado: o que perguntar antes de contratar

O mercado de consultoria ESG cresceu rápido e, com ele, a oferta de profissionais com currículos recheados de siglas. Para quem contrata — seja o dono de uma transportadora que precisa estruturar um inventário de emissões, seja o RH de uma empresa média que vai montar um comitê de sustentabilidade — o desafio real é separar quem entende do assunto de quem apenas assistiu a cursos introdutórios e acumulou certificados.

Este roteiro foi feito para ajudar nessa triagem.

O problema não é a sigla, é o que está por trás dela

ESG não é uma norma única. É um guarda-chuva que abriga frameworks de relato (GRI, ISSB/IFRS S1 e S2, ESRS europeu), protocolos de mensuração (GHG Protocol, PCAF), padrões setoriais (SASB), normas de gestão (ISO 14001, ISO 45001) e, em camada separada, normas de asseguração — que verificam o que foi divulgado.

Um profissional qualificado sabe em qual dessas categorias está trabalhando e não confunde uma com a outra. Quem decora sigla tende a tratá-las como sinônimos intercambiáveis.

Perguntas que separam domínio de decoreba

Use estas questões em entrevistas ou na análise de propostas:

1. "Qual é a diferença entre uma norma de relato e uma norma de asseguração?"
A resposta correta é direta: a norma de relato diz o que a empresa deve divulgar; a norma de asseguração diz como um profissional independente verifica se o que foi divulgado está correto. GRI e ISSB são normas de relato. A ISSA 5000, emitida pelo IAASB, é uma norma de asseguração. Confundir as duas categorias é sinal de formação superficial.

2. "Você trabalha com asseguração limitada, razoável ou com as duas? Qual a diferença prática?"
Na asseguração limitada, o nível de evidência coletado é menor e a conclusão é negativa ("nada chegou ao nosso conhecimento que indique..."). Na razoável, o trabalho é mais extenso e a conclusão é positiva ("em nossa opinião, a informação está preparada de acordo com os critérios"). Quem não sabe responder isso não deveria assinar relatório de asseguração.

3. "Em que referenciais de relato você já trabalhou? Me dê um exemplo concreto."
Frameworks como GRI, ISSB, ESRS e GHG Protocol têm lógicas distintas. Pedir um exemplo concreto — "auxiliei a empresa X a preparar o índice GRI conforme a opção de conformidade essencial" — revela se o candidato realmente operou o framework ou apenas leu sobre ele.

4. "O que é materialidade dupla e onde ela se aplica?"
Materialidade dupla (impacto + financeiro) é central no ESRS europeu e no GRI. O ISSB adota materialidade financeira. Confundir os dois contextos é erro básico para quem vai orientar uma empresa sobre qual framework adotar.

5. "Que requisitos de ética e independência se aplicam a um praticante de asseguração de sustentabilidade que não é contador?"
A ISSA 5000 — norma global de asseguração publicada pelo IAASB em novembro de 2024, vigente para períodos iniciados a partir de dezembro de 2026 — é explícita: pode ser aplicada tanto por contadores quanto por praticantes de outras profissões (engenheiros, verificadores ambientais, firmas de certificação), desde que esses profissionais estejam sujeitos a requisitos de ética, independência e gestão de qualidade ao menos tão rigorosos quanto os aplicáveis aos contadores. Quem oferece asseguração sem saber disso está pisando em terreno que não conhece.

O que uma certificação realmente prova

Certificações de cursos livres em ESG atestam que o profissional concluiu um programa de treinamento. Isso tem valor — especialmente para quem está aprendendo — mas não equivale a credencial de asseguração nem a habilitação regulatória.

Pontos para verificar:

  • Quem emitiu? Instituições com processo transparente e reconhecido pesam mais do que cursos de plataformas sem supervisão externa.
  • O conteúdo cobre frameworks operacionais ou apenas conceitos? Saber usar o GHG Protocol para calcular emissões de Escopo 1 e 2 é diferente de saber enunciar o que é Escopo 1 e 2.
  • Há requisito de experiência prática? Certificações mais robustas exigem horas de trabalho aplicado, não apenas prova escrita.
  • É renovável? O campo muda rápido. Uma certificação sem requisito de atualização pode refletir o estado do conhecimento de três anos atrás.

Quando exigir credencial de asseguração formal

Asseguração de relatório de sustentabilidade é trabalho técnico regulado. No Brasil, o CFC e o IBRACON adotam as normas do IAASB; a ISSA 5000 deve ser internalizada como NBC (Norma Brasileira de Contabilidade). Isso significa que, quando uma empresa quiser assegurar formalmente suas divulgações de sustentabilidade, o trabalho precisa ser conduzido por praticante sujeito a requisitos equivalentes aos que a norma estabelece — não basta ter feito um curso de ESG.

Para uma PME, a situação mais comum hoje é a asseguração voluntária de relatórios GRI ou de inventários de GEE. Nesse caso, exija saber: o profissional ou firma está sujeito a que código de ética e a que sistema de gestão de qualidade? A resposta deve ser específica, não genérica.

Se a resposta for vaga, é sinal de alerta.

O que isso significa para quem contrata

Algumas orientações práticas:

  • Para estruturar ESG internamente (diagnóstico, mapeamento de materialidade, relatório): busque profissional com experiência documentada em pelo menos um framework operacional relevante para o seu setor. Peça exemplos de entregas anteriores.
  • Para inventário de emissões: verifique familiaridade real com o GHG Protocol — especialmente os escopos 1, 2 e, se aplicável, 3.
  • Para assegurar formalmente um relatório: o trabalho envolve norma técnica específica (hoje, caminhando para a ISSA 5000). Consulte um contador ou firma de auditoria habilitada; não é serviço de consultoria generalista.
  • Para navegar exigências de clientes europeus: frameworks como ESRS e a diretiva CSRD têm requisitos próprios. Profissional sem experiência nesse ecossistema vai aprender no seu projeto — avalie se é isso que você quer.

Por onde seguir

Se você está do lado de quem quer se qualificar, a distinção entre relato e asseguração é o primeiro nó a amarrar. Os materiais de apoio do IAASB sobre a ISSA 5000 — incluindo guia de implementação e relatórios ilustrativos disponibilizados pela IFAC — são ponto de partida sem custo.

Se você está contratando, o roteiro acima não substitui a avaliação de referências e de entregas concretas. Perguntas abertas revelam mais do que qualquer lista de certificados no currículo.

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